Luiza Trajano defende engajamento da sociedade civil nas questões das mulheres

19 de outubro de 2018
Por Luís Indriunas, da Avocar Comunicação

Em reunião-almoço do IASP, a empresária defendeu cotas para aumentar a presença feminina nas empresas e falou sobre campanha para denúncias de violência contra a mulher

Convidada a participar da tradicional reunião-almoço do Instituto dos Advogados de São Paulo (IASP), nesta sexta (19/10), a empresária Luiza Helena Trajano defendeu o engajamento da sociedade para necessárias mudanças estruturais e explicitou seu amplo apoio à adoção de cotas para as mulheres em empresas. Luiza destacou que a política de cotas deve fazer parte de um processo transitório, para que haja mais participação da mulher no mercado.

“O mercado precisa de mulheres. Nós precisamos, acima de tudo, da união do masculino com o feminino. Essa junção é que dá muito certo”, disse a empresária em uma palestra cheia de humor.

O clima de informalidade já se mostrou na apresentação da convidada pelo presidente do IASP, José Horácio Halfeld Ribeiro. “Queria informar aqui que a Luiza é formada em Direito pela Faculdade de Franca, em 1972. Então dá para entender um pouquinho o sucesso dela. Não é pelo tino empresarial dela, é porque ela teve uma formação adequada”, brincou.

José Horácio falou sobre o engajamento do IASP nas questões relacionadas às mulheres, principalmente a partir de 2015, por meio da então diretora e hoje conselheira Raquel Preto, quando foram feitos os primeiros eventos temáticos.

Luiza tocou em assuntos relevantes, tanto do ponto de vista dos negócios, como do comportamento da sociedade. “Antigamente, quem tinha poder tinha força física. Depois, quem tinha poder tinha dinheiro. Hoje, quem tem poder tem conhecimento e faz acontecer”.

Ao analisar o modelo de gestão adotado anteriormente pelas empresas, ela o classificou como mecânico. “Tudo era quantitativo, não se enxergava o qualitativo. Não se falava sobre satisfação do cliente, nem sobre o bem-estar das pessoas. Nas empresas, se dizia: ‘aqui você é profissional; não traga problema de família para cá’. E a gente acabava repetindo. Era uma época muito dura”, lembrou a empresária.

No entanto, Luiza acredita que o modelo de gestão orgânico tem mostrado ser o mais adequado para os dias atuais. “As empresas têm que ser simples, não podem ter burocracia, devem saber lidar com as pessoas, pensar grande, ser criativas.”

E, nesse sentido, a empresária considera fundamental a presença feminina nas organizações. “Porque nós, mulheres, por não termos vivido a era mecânica, nós estamos muito preparadas para esse tipo de empresa”, justifica, lembrando a bagagem que as mulheres carregam por serem as responsáveis pela educação dos filhos.

Ao defender o estabelecimento de cotas, Luiza apontou que, atualmente, apenas 7% dos conselheiros de empresas são mulheres. Ao retirar desse percentual as filhas ou donas de empresas, o número cai para 2%. Nesse ritmo, segundo a avaliação dela, o Brasil levaria 100 anos para ter entre 10% e 15% de mulheres em conselhos. “E há quem critique, falando em meritocracia. Está bom, então, espera 120 anos”, concluiu, lembrando que o assunto foi também defendido pela ex-presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Cármem Lúcia, quando ela ocupava o cargo.

Luiza, no entanto, acredita que há outras medidas bem simples que podem ajudar a mulher no mercado de trabalho. A essas ações ela chama de “pérolas”. Um dos exemplos de mudança que adotou em suas lojas foi a adaptação do processo de formação de chefes e supervisores. A política de gestão do Magazine Luiza prevê que, para alcançar cargos como o de gerente de lojas, o colaborador tem que cumprir um estágio de seis meses em lojas da rede em outras cidades. No entanto, poucas mulheres aceitavam o desafio, já que teriam que se ausentar por muito tempo dos cuidados da casa e dos filhos. A solução foi simples. Os estágios foram limitados a um raio de 100 km do local de moradia da funcionária. Atualmente, mais de 50 mulheres do grupo fazem parte do programa.

Outro exemplo é o cheque-mãe, que o grupo oferece a todas as mulheres com filhos com até 11 anos de idade e que ficam sob os cuidados de outra pessoa, para que a mãe possa trabalhar. No caso de mulheres com filhos excepcionais, que aderem ao estágio, o benefício é o equivalente a três cheques.

Violência contra mulher

Antes de finalizar a sua fala no almoço do IASP, a empresária tocou em um assunto indigesto: a violência contra a mulher. “É muito mais grave do que você pode pensar”, alertou.

A empresária, que fundou o movimento “Mulheres do Brasil”, grupo apartidário que discute questões de gênero, admitiu que nunca tinha dado muito destaque à questão até que uma funcionária foi morta a facadas pelo próprio marido, que acabou se suicidando. Arrependida por não ter dado a devida atenção ao tema, Luiza decidiu falar sobre o assunto por meio da comunicação interna da empresa, pronunciando-se pessoalmente, garantindo treinamento e criando um disque-denúncia para qualquer suspeita.

O movimento contou com a adesão dos homens também. “Quem mais está denunciando os casos são os próprios homens. Eles procuram o canal e alertam: ‘olha a mulher chegou aqui com o braço roxo’”, conta.

Luiza se entusiasma ao falar do engajamento em movimentos como o “Mulheres do Brasil”, fundado há 5 anos e que já conta com mais de 20 mil participantes e 18 comitês dedicados aos mais diversos assuntos, como educação, violência contra a mulher, racismo e empreendedorismo. “Só através de uma sociedade civil organizada é que vamos mudar o Brasil”.

Acreditando na importância de ações como essa, o Magazine Luiza criou uma campanha para ampliar as denúncias de abusos contra a mulher. Com o mote “em briga de marido e mulher, eu meto a colher”, a rede ofereceu no seu e-commerce colheres vendidas por R$ 1,80 (numa alusão ao número 180 do Disque-Denúncias) e grafadas com “#eumetoacolhersim”, e também criou um canal para denúncias. Em 3 horas, foram vendidas 30 mil colheres. Veja o vídeo da campanha, que encerrou a palestra. https://www.youtube.com/watch?v=LryCA6WYLjg

Com todo esse humor, engajamento e informalidade, Luzia Trajano foi aplaudida de pé pela seleta plateia presente no Hotel Intercontinental.

Assista à integra de seu discurso.

Julia Faria