COM HISTÓRICO DE ABANDONO E REVITALIZAÇÕES FRACASSADAS, CENTRO ABRAÇA NOVA RETOMADA

ANA ESTELA DE SOUSA PINTO
DE SÃO PAULO

09/07/2017  02h00

O plano já saiu da prancheta do premiado arquiteto Arthur Casas. Peças pré-moldadas de concreto recobrem como uma colcha os 47 mil m² das praças da Sé e Clóvis Beviláqua.

Somem os cinco patamares, as escadas, muretas, piscinas e cascatas, e entram parquinho, pista de skate, praça de food trucks, espaços de convivência sobre as ondulações suaves do novo piso.

Quinze esculturas viram roteiro coordenado por Marcello Dantas (curador da Japan House). Gramados se unem a 18 espécies botânicas na paisagem de Luiz Carlos Orsini, especialista em grandes jardins.

“Não é por favor ou nostalgia. Queremos dar vida à praça que é o coração da cidade”, afirma José Horácio Halfeld Rezende Ribeiro, presidente do Instituto dos Advogados de São Paulo (Iasp), idealizador do projeto.

Apresentado à Prefeitura de São Paulo, o plano está em negociação com patrocinadores dispostos a investir os R$ 100 milhões previstos. “É menos do que muitas empresas gastam com clubes de futebol”, compara.

A Caixa, por exemplo, destinou mais de R$ 130 milhões aos 20 times que patrocina neste ano. Foi o banco estatal que bancou também a revitalização da zona portuária do Rio, orçada em R$ 8 bilhões.

Mais modesto nos números, o projeto do Iasp é ambicioso no impacto. “Tem o efeito transformador da praça Mauá, mas é incomparável nas oportunidades”, diz Ribeiro.

Passam pela região central paulistana 2 milhões de pessoas por dia e há 2,4 vagas de emprego para cada morador em idade ativa. Estão no centro mais de 700 mil postos formais de trabalho, 17% do total da capital.

Se o Iasp tiver sucesso, esta será a terceira reforma da praça que abriga o marco zero da cidade. Aberta no período colonial, ganhou a atual feição na década de 1970, durante as obras da estação de metrô. Na época, a tendência, vinda dos EUA, era dividir o terreno em patamares e grandes volumes geométricos de terra.

Em 2006, nova reforma conectou algumas áreas, mas manteve as linhas gerais.

CONTRA O ESVAZIAMENTO

A nova praça não ficará pronta antes de 2020, mas o centro não está parado. Nos últimos anos, veio uma nova safra de espaços culturais, casas noturnas e restaurantes.

No próximo mês, a 50 metros do Theatro Municipal, uma unidade do Sesc abre as portas para 5.000 pessoas por dia em 13 andares que, lado a lado, cobririam mais de metade da praça da Sé. Da piscina que ocupa o topo é possível ver boa parte da cidade.

Mais que o investimento na infraestrutura, o principal benefício do Sesc será ativar sete dias por semana e 12 horas por dia uma região que vai ficando deserta depois das 18h. ‣

“Contra o esvaziamento pós-fim de expediente, um remédio é mesclar trabalho, residência, escolas, clube, comércio, tudo misturado, sempre funcionando”, observa Danilo Santos de Miranda, 73, diretor-regional do Sesc-SP.

A nova unidade terá restaurante, café, biblioteca, academia, solário, clínica odontológica e um teatro com 245 lugares e espetáculos até tarde da noite. Iluminação e segurança devem ajudar todo o entorno. Os pedestres passarão livremente pela galeria do térreo. “É como se fôssemos parte da rua.”

Ocupar é a palavra de ordem, e não vai parar na rua 24 de Maio. O projeto da próxima unidade, ao lado do Mercado Municipal, já está em andamento. Será a sexta na mesma região da cidade em que o Sesc começou, nos anos 1940, na rua Boa Vista.

Ocupar inspira também o plano de intervenção urbana do Terminal Princesa Isabel, lançado pela prefeitura na última semana. A proposta é trazer moradores de todas as faixas de renda. Outro projeto é criar um circuito organizado de compras ligando Bom Retiro, Brás, Pari, 25 de Março e Santa Ifigênia.

A gestão estuda ainda transformar o minhocão em um parque linear.

Umas das dificuldades é que o centro paulistano “perdeu sua vocação”, diz o empresário Rubens Menin, presidente do conselho da Abrainc (associação de incorporadoras).

Nos anos 1960, o governo estadual deixou o palácio Campos Elíseos rumo ao Morumbi. Restaurado duas vezes, o imóvel está vazio há 11 anos, mas em breve deve ganhar novo uso como escola.

A mudança iniciou uma onda de evasão, acelerada pelas obras das gestões de Jânio Quadros (1986/1988), Paulo Maluf (1993/1996), e Celso Pitta (1997/2000) na prefeitura. Os três abriram avenidas, túneis e viadutos para o sudoeste, estimulando o boom imobiliário em bairros como Itaim Bibi, Vila Nova Conceição, Brooklin e Moema.

O processo de esvaziamento foi em parte estancado com a ida da prefeitura para o viaduto do Chá, em 2004. Agora, empresas que voltaram a ver mais benefícios que desvantagens na região querem reverter a tendência.

E A CRACOLÂNDIA?

Nos últimos 15 dias, cinco andares nos Campos Elíseos receberam os 450 funcionários da Minuto Seguros, fundada há sete anos na rua dos Pinheiros. O presidente, Marcelo Blay, cita cinco motivos da escolha:

1) não havia mais espaço para os cem funcionários que a empresa está contratando (a meta é chegar a 800);
2) ao estudar os trajetos, o centro era mais próximo, na média, para os empregados;
3) há uma estação da linha vermelha do metrô (a mais usada) a três quadras dali;
4) o gerador, indispensável, não cabia na outra sede, e
5) o aluguel por metro quadrado é R$ 30, 30% do cobrado na zona oeste.

Quando avisaram às equipes da mudança, a reação foi desastrosa, conta Blay. “Estavam com muito medo de vir para cá, por causa da cracolândia. Ex-executivo da Porto Seguro (que tem 10 mil funcionários em 12 prédios na região), Blay usou o próprio exemplo para tranquilizar o pessoal.

“Fizemos um guia com os serviços do bairro, e eles descobriram uma sexta vantagem. O vale-refeição de R$ 23, que na rua dos Pinheiros não paga um almoço, aqui dá e sobra para a sobremesa.”

Muito mais próximos da concentração de usuários de drogas, Sesc e Porto Seguro veem exagero no medo. “Há uma sensação de insegurança que tem muito de preconceito”, acredita Fábio Luchetti, presidente da seguradora, que há quatro anos inaugurou um teatro e, em 2016, um espaço cultural.

A empresa também criou uma associação para solucionar problemas de iluminação, calçamento e limpeza no bairro.

Mesmo com a dispersão da cracolândia pela região após operações policiais, os 500 lugares do teatro estavam quase todos ocupados no final de junho, quando a sãopaulo acompanhou o show do cantor Márcio Gomes. Na outra ponta da quadra, 12 ex-usuários de crack em recuperação admiravam “Ilusinha”, diminuto poema-objeto que brinca com a palavra ilusão na exposição de Arnaldo Antunes, Fernando Laszlo e Walter Silveira, “Luzescrita”, em cartaz até o dia 30.

Foram a diversidade e o volume de público que surpreenderam os laboratórios Delboni, há oito meses com nova unidade na região do viaduto do Chá, a primeira no centro.

A empresa já programa expandir seus serviços. “Não esperávamos chegar aos 19 mil exames/dia em tão pouco tempo”, conta o gerente regional de atendimento, José Uênes. Levantamento dos CEPs dos clientes mostrou que eles vêm de todos os pontos da cidade.

Iniciativas isoladas não faltam, mas investidores e urbanistas se ressentem da escassez de políticas articuladas e duradouras. “Não adianta pintar um viaduto aqui, recuperar um imóvel ali”, afirma Luchetti, da Porto Seguro. “Nem só inaugurar um museu”, constata a pesquisadora Isaura Botelho, que estudou investimentos culturais na região.

O centro precisa dar às pessoas motivos para ficar ali (até mesmo morar) e não só cruzá-lo ou ir a um único ponto e sair correndo.

“O prefeito nos procurou para que adotássemos um monumento ou uma pracinha”, conta Botelho, do Iasp. “Mas queremos mais. Falta esse círculo virtuoso, em que o investimento privado no centro traz negócios, que geram impostos, que produzem mais serviços que estimulam mais investimentos.”

Eduardo Odloak, prefeito regional da Sé, diz que a prefeitura tem procurado parcerias de zeladoria porque elas se resolvem com um termo de colaboração. “Obras maiores esbarram nos órgãos de proteção do patrimônio, que têm tramitação muito lenta.”

O administrador tem coordenado acordos com o setor privado para refazer o calçadão do triângulo financeiro, reformar o largo do Arouche e cuidar do Páteo do Colégio.

A alternância de adversários políticos nas esferas municipal, estadual e federal, porém, impede que iniciativas prosperem. “Sem a certeza de que as regras vão continuar, ninguém investe”, afirma Adilson Dallari, professor de direito urbanístico e ex-secretário municipal de Administração.

“Há limites para a tentativa dos governos de ocupar o centro com moradia popular”, diz Benin, da Abrainc. Ele cita alternativas com a de Nova York, em que a prefeitura incentivou prédios que mesclam moradores de renda alta e baixa.Foi esse um dos motivos para que apenas uma das quatro parcerias de habitação propostas pelo Estado fosse adiante, dizem empresas do setor. Na região da Luz, o complexo terá 1.200 moradias, creche para 200 crianças e espaço para lojas no pisos térreos.

Para Eduardo Fischer, presidente da MRV (maior incorporadora de imóveis de baixa renda no país), o “caminho definitivo é dar segurança jurídica e vantagem econômica a empresas, comércio e moradores que queiram se instalar na região”.

Em livro do Cebrap sobre a região, o geógrafo Vagner de Carvalho Bessa aponta inovação e serviços de alto valor agregado como as melhores saídas. Se “recuperar a centralidade do centro” é tarefa inviável, como conclui o economista Paulo Sandroni na mesma obra, o desafio é encontrar suas novas vocações e ampliá-las.

No novo Sesc, foi o ponto de vista que se ampliou. Os também premiados Paulo Mendes da Rocha e escritório MMBB trocaram todas as paredes de um dos lados do prédio por imensas vidraças que mostram o centro como ele é, com seus fundos de edifício, suas cozinhas e áreas de serviço.

É do que fala Danilo Miranda: “Qualquer projeto que não aceite o pobre, o precário e o periférico já começa errado”.

http://www1.folha.uol.com.br/saopaulo/2017/07/1899300-com-historico-de-abandono-e-revitalizacoes-fracassadas-centro-abraca-nova-retomada.shtml