Turma de 1990 da USP pode emplacar 2º ministro no STF

Alexandre de Moraes e Dias Toffoli estudaram na mesma turma na USP

Ricardo Peake Braga

13 de Fevereiro de 2017 – 13h31

Alexandre de Moraes fará companhia a Dias Toffoli, Celso de Mello e aos demais ministros no Supremo Tribunal Federal (STF), ao que tudo indica. Será o 55º ministro formado nas Arcadas franciscanas, assim como Celso, e o segundo da Turma de 1990, que ao lado de Alexandre e Toffoli, produziu também brilhantes professores, advogados, magistrados, promotores, procuradores, todos formados num período de intensas transformações no Brasil e no mundo.

O ano de ingresso (1986) trouxe ao velho Centro de São Paulo moças e rapazes nascidos, em sua maioria, em 1968 e 1967. Uma geração nascida e criada sob o regime militar, que atingia a maioridade ao mesmo tempo em que sopravam os ventos otimistas da redemocratização. Uma geração que sentia a mudança acontecendo e que queria entender como opinar e participar dessa mudança.

E não havia lugar melhor para isso que a lendária Faculdade do Largo São Francisco, escola onde estudaram 13 presidentes da república (de Prudente de Moraes a Michel Temer), ministros, poetas e escritores (Castro Alves, Álvares de Azevedo. Monteiro Lobato, Guilherme de Almeida, Oswald de Andrade – este, aliás, o nome oficial da Turma de 1990 – , Paulo Bomfim etc.), políticos (Joaquim Nabuco, Antonio da Silva Prado, Ruy Barbosa, Ulysses Guimarães, Franco Montoro e tantos outros), artistas (Paulo Autran, Di Cavalcanti) e, claro, inúmeros juristas.

Naquele ano, como de resto desde sempre, os calouros iam chegando, cheios de si, com a autoestima em alta após o sucesso no mais concorrido vestibular de Direito do País. Mas, tranposto o enorme portal de entrada, a cada passo dado para o interior daquele magnífico prédio, cinza, mal iluminado, cheio de sombras, corredores, portais, estátuas, quadros a óleo de antigos professores, rapidamente crescia a sensação de se estar entrando numa sociedade secreta, numa espécie de escola de iniciados onde, muito mais que Direito, aprenderíamos grandes segredos sobre o Poder. A aula inaugural foi ministrada pelo carismático Goffredo da Silva Telles, que se aposentara no final do ano anterior.

1986 foi marcado pelo malfadado Plano Cruzado, que queria acabar com a inflação por decreto. O resultado foi uma longa e profunda crise econômica, bastando dizer que o governo Sarney terminou com a inflação a 84% ao mês!! Os muitos jornais acadêmicos, editados por alunos cheios de ideias para o mundo, eram distribuídos à farta. Os artigos, em sua grande maioria, tratavam de política,  economia e Direito, estes escritos por alunos dos anos já mais próximos da graduação. Nos jornais dos calouros predominavam poemas, contos, crônicas, política e economia. A liberdade na faculdade era tanta que chegava a ser caótica. Os novos alunos perdiam-se entre tantos novos amigos, tantas descobertas intelectuais, novos amores, festas.

Nos anos de 1987 e 1988, todos acompanhavam os trabalhos da Assembleia Nacional Constituinte, que tentava refundar as bases jurídicas do País, num clima de esperança e idealismo. Ulysses Guimarães buscava consensos difíceis entre socialistas, empresários, interesses corporativos, regionais e locais, e oportunistas políticos de todo gênero. E essa polarização era ainda maior no ambiente estudantil, época em que todos têm convicção de que têm a receita para salvar o mundo.

O resultado foi a Constituição de 1988, uma colcha de retalhos democrática, garantista, generosa e detalhista.

No final de 1989, cai o Muro de Berlim, construído pela Alemanha Oriental comunista para evitar a fuga de seus habitantes para o lado Ocidental capitalista. E, com ele, implodem a União Soviética e os regimes comunistas do leste europeu. Era, segundo Eric Hobsbawn, o término antecipado do século XX. Era o fim de um mundo dividido entre capitalismo e socialismo; entre Ocidente e Oriente; entre democracia e comunismo; era, enfim, o fim do mundo no qual aquela geração, agora com vinte e poucos anos, nascera e crescera.

Imediatamente, a Constituição de 88, com apenas um ano de idade, pensada e criada num mundo que não mais existia, parecia estranhamente velha…

Em 1989, ocorreu a primeira eleição democrática de um presidente da República em quase trinta anos. O segundo turno entre Collor e Lula foi um certo anti-climax para muitos e acirrou ainda mais uma polarização ideológica que, paradoxalmente, parecia ter menos sentido após a derrocada do bloco soviético. Collor, o eleito, herdou do desastroso governo Sarney uma inflação de 84% ao mês e iniciou seu governo, em 1990, bloqueando todas contas bancárias e aplicações financeiras acima de um determinado (e baixo) valor. A perplexidade foi geral. Cidadãos recorreram à Justiça, que, nas primeira e segunda instâncias, não se furtou a seu papel de garantir o Direito e a Constituição e liberar os valores. O STF, na época, não se manifestou. Um verdadeiro “grand finale” político-econômico para uma Turma que já navegara mares tempestuosos desde o já longínquo ano de 1986.

Em meio a esse cenário histórico, professores famosos (Alexandre Correia, o filho, Dalmo Dallari, Antonio Junqueira de Azevedo, Tércio Sampaio Ferraz Jr., Manoel Gonçalves Ferreira Filho, Ada Pellegrini Grinover, Antonio Carlos de Araújo Cintra – paraninfo da Turma-, Celso Lafer, Cândido Rangel Dinamarco, Fabio Comparato, José Rogério Tucci, Carlos Alberto Carmona, Otávio Bueno Magano, Amauri Mascaro Nascimento, José Eduardo Faria, Odete Medauar, Newton Silveira, Aníbal Fernandes, José Cretella Jr., Yussef Said Cahali, Eros Roberto Grau, Sérgio Pitombo, Ricardo Lewandowski e tantos outros), muitas festas, peruadas históricas, bebedeiras e debates políticos no XI de Agosto, rituais pagãos no túmulo de Julius Frank, viagens memoráveis com a Atlética, poesia, música nas Arcadas e, acima de tudo, alunos do mais alto nível, de diferentes origens, do Brasil todo, do estrangeiro, pobres e ricos, comunistas, sociais democratas, liberais e conservadores, todos vivendo juntos o sonho e no ideal de aprender o Direito na lendária Faculdade do Largo São Francisco.

Ao final, orgulhosos de nosso diploma e já saudosos da escola onde mora a amizade, saímos pelos imponentes portais, para dar os primeiros passos do resto de nossas vidas.

Ricardo Peake Braga – Aluno da turma de 1990 da Faculdade do Largo São Francisco (Direito USP) e diretor de Relações Institucionais do Instituto dos Advogados de São Paulo (IASP)

http://jota.info/artigos/turma-de-1990-da-usp-pode-emplacar-2o-ministro-no-stf-13022017

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